sábado, 8 de janeiro de 2011

O CONSELHEIRO


Toda a gente quer ser moça, mesmo quando ilude os outros pintando os cabelos. No íntimo só engana a si próprio. As pernas cansam, as juntas estalam, sobrevém um certo tédio diante das novidades. E num canto, a sós, suspira pelos dias de outrora, com aquela saudade de si mesmo a que se referiu Machado de Assis no Memorial de Aires.

Ao morrer, Machado tinha 69 anos, e era bem um velho, na compostura, no traje, nos cabelos, na barba, no pincenê de trancelim. Queria ser conselheiro. O Conselheiro Machado de Assis. Tardando o título, por distração do imperador, deu-o a seu derradeiro personagem, o Conselheiro Aires, alter-ego do diplomata que seu autor poderia ter sido.

HUMBERTO, UM GOZADOR


Genial escritor nascido no Maranhão (1886-1934), Humberto de Campos, autor de mais de 40 obras e membro da ABL aos  33 anos, foi o autor mais lido de sua época e um dos exemplos mais expressivos do quanto pode o talento congênito aliado à perseverança no estudo e no trabalho. Antes de tudo, um brilhante gozador, como podemos vê-lo em seu Diário Secreto, publicado depois de sua morte.  É um dos meus permanentes autores de cabeceira desde a juventude distante.

Um dia, numa livraria do Rio, Viriato Correia, colega de academia e maranhense como ele, contou-lhe a história de um burro de Pirapemas que se punha a zurrar, no Largo da Matriz, todas as vezes que o vigário se inflamava no sermão de domingo. Humberto riu muito e disse a Viriato que ia aproveitar essa história num artigo.

E, de fato, aproveitou-a, mas a seu jeito gozador. Vejam o que disse ele no remate do artigo:

-- Desde que ouvi este caso, não posso ver um burro sem me lembrar do Viriato...

Vítima de uma irregularidade na hipófise, uma pequena glândula situada no meio do crânio, responsável pelo comando de tantas funções importantes no corpo, o que lhe provocava sofrimentos terríveis, inclusive uma quase cegueira, o escritor foi convencido por seus médicos a se submeter a uma delicada cirurgia. Eram cinco médicos a seu redor. Um deles, antes de iniciar a operação,  perguntou se o escritor estava com medo.  Humberto respondeu com um riso de canto de boca:

-- Claro,  são cinco contra um...

Morreu durante uma cirurgia, na Casa de Saúde Dr. Eiras, em Botafogo.  Tinha 48 anos.

LINCOLN


Presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln  (1809-1865) é o único intelectual de primeiro time, que eu saiba, que acreditava em democracia e gostava de povo. Li, reli e tresli a “Oração de Gettysburg”, as palavras que disse às tropas antes dessa batalha (duas batalhas) que virou a maré na Guerra Civil Americana e não encontro a nota falsa, no “do povo e pelo povo”  que ele propõe. Era ateu, mas citava a Bíblia sempre com brilhantismo. Foi o maior e o mais amado dos presidentes dos Estados Unidos  (1861-1865), assassinado com um tiro na nuca pelo ex-ator John Booth  (um fanático da Guerra da Secessão) em seu camarote no Teatro Ford, em Washington, no dia 14 de abril de 1865, onde assistia à peça “Nosso Primo Americano”.

VERGONHA


O PMDB e seus numerosos pivetes estão a brigar, ferozmente,  pelos cargos do 2º  escalão. Dilma nada pode fazer diante dos abutres do partido, sentados em cima do muro, aguardando a hora de assegurar a divisão da carniça. É o preço que a presidente  pagará pelo apoio da sigla carniceira, que já tem o vice-presidente da República, o sinistro Michel Temer,  vai presidir a Câmara dos Deputados, onde tem maioria,  e está entupido de ministros. Um partido de frutos podres de uma mesma árvore. Para ir ao Congresso, um homem de bem, neste momento,  tem de usar lenço no nariz. O mau cheiro é insuportável.