quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Quem morreu hoje?

 Conheci um idoso, até simpático. A gente se encontrava vez por outra, sempre na mesma livraria. Era infeliz, pelo que eu sabia a seu respeito, e ele mesmo pouco se lixava em mostrar sua infelicidade. Já passava dos 80 anos. Ou seja, bem além do termo da vida previsto pelas Escrituras. Irá aos 90. Quem sabe, aos 100. Entretanto, longe de ser um prêmio, a vida para ele é um castigo. Veio ao mundo para testemunhar as vitórias alheias, e isso o maltrata, o machuca, tira-lhe o sono. 

 Só tem um consolo – acompanhar o enterro de seus contemporâneos. De manhã, quando abre o jornal, vai diretamente à página do obituário, para ver quem deu baixa. Ganhou o dia, se tem velório à vista. Abre um largo sorriso. Todos o conhecemos. Dou-lhe o nome? Não. Não merece.

Descrença

 O mundo endoidou. Já não dá para crer em mais nada, e eu não creio sequer na Palavra Sagrada, que nada mais é do que sintaxe e gramática de lavra humana. As palavras estão longe de cobrir nosso mundo sensorial e espiritual. Foi um momento de extraordinária auto-introspecção na história da filosofia e da vida humana. Quem quiser me acompanhar nesse raciocínio, acompanhe. Quem não quiser, chute pedra!

A moenda

 Eis um dos mais belos sonetos que conheço. O autor é o poeta piauiense Da Costa e Silva, nascido na cidade de Amarante, a 160km de Teresina, onde estudou o primário e o antigo ginásio. Ele é o autor da letra do Hino do Piauí (“Piauí, terra querida / Filha do sol do Equador”...), chamava-se Antônio Francisco da Costa e Silva. Nasceu em novembro de 1885, formou-se advogado em Recife, foi funcionário graduado do Ministério da Fazenda, no Rio de Janeiro, onde faleceu em 1950, aos 65 anos. Membro da Academia Piauiense de Letras e consagrado Príncipe dos Poetas Piauienses, o soneto é simplesmente genial. Leiam e julguem:



Na remansosa paz da rústica fazenda
À luz quente do sol e à fria luz do luar 
Vive, como a expiar uma culpa tremenda
O engenho de madeira a gemer e a chorar 

 Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda 
E ringindo e rangendo a cana a triturar 
Parece que tem alma, adivinha e desvenda 
A ruína, a dor, o mal que vai talvez causar... 

 Movida pelos bois tardos e sonolentos 
Geme, como a exprimir, em doridos lamentos 
Que as desgraças por vir sabe-as todas de cor 

 Ai! dos teus tristes ais! Ai! moenda arrependida! 
Álcool! Para esquecer os tormentos da vida 
E cavar, sabe Deus, um tormento maior!

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Tempo.


Lembram deste soneto? Chama-se Conta do Tempo. O autor é Frei Antônio das Chagas (1631-1682). Antes de se tornar frei franciscano, chamava-se Antônio da Fonseca Soares. O nome dele está ligado ao Morro do Castelo, no Rio, onde ajudou a construir o Convento Santo Antônio. 


 Informações para os arquivos do leitor. Eis a íntegra:



Deus pede estrita conta do meu tempo
     E, eu vou do meu tempo, dar-lhe conta
      Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
               Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

            Para dar minha conta feita a tempo,
             O tempo me foi dado e não fiz conta,
                 Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
                      Hoje quero acertar conta e não há tempo. 

                         O!... Vós que tendes tempo, sem ter conta,
                        Não gasteis vosso tempo em passatempo,
                        Cuidai enquanto é tempo, em vossa conta.

                             Pois, aqueles que sem conta, gastam tempo,
                           Quando o tempo chegar de prestar conta,
      Chorarão, como eu, o não ter tempo.