quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Tempo.


Lembram deste soneto? Chama-se Conta do Tempo. O autor é Frei Antônio das Chagas (1631-1682). Antes de se tornar frei franciscano, chamava-se Antônio da Fonseca Soares. O nome dele está ligado ao Morro do Castelo, no Rio, onde ajudou a construir o Convento Santo Antônio. 


 Informações para os arquivos do leitor. Eis a íntegra:



Deus pede estrita conta do meu tempo
     E, eu vou do meu tempo, dar-lhe conta
      Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
               Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

            Para dar minha conta feita a tempo,
             O tempo me foi dado e não fiz conta,
                 Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
                      Hoje quero acertar conta e não há tempo. 

                         O!... Vós que tendes tempo, sem ter conta,
                        Não gasteis vosso tempo em passatempo,
                        Cuidai enquanto é tempo, em vossa conta.

                             Pois, aqueles que sem conta, gastam tempo,
                           Quando o tempo chegar de prestar conta,
      Chorarão, como eu, o não ter tempo.

A morte de um jornal.

 Eu já vi um jornal nascer e já vi um jornal morrer. Tenho pronto os originais de um livro onde conto o nascimento do Diário do Nordeste, desde o primeiro minuto, até se tornar um dos mais importantes do país, fruto do último grande empreendimento do industrial Édson Queiroz. Mas só poderei publicar o trabalho depois de  autorizado pela autoridade maior do Grupo Queiroz, D. Yolanda, que não mostrou interesse pelo projeto e a quem me curvo porque sem a autorização dela não poderei ir adiante. Não recorri ao chanceler Airton Queiroz, porque se mãe dele não acolheu a idéia, evidente que ele não vai contrariá-la. Dei o assunto por encerrado. Mas os originais estão bem guardados. Quem sabe, um dia poderá . ser útil. Jornalismo é algo complicado.  Aprendi muito sobre jornais, principalmente em minha passagem pelo Diário Carioca, comandado por Pompeu de Sousa e Luís Paulistano, que modernizaram o jornal ao feitio dos americanos, a partir do famoso leed e da guilhotina do velho e pomposo “narizde cera” Mas vou ficando por aqui, porque comento fartamente o assunto no meu livro De cima da goiabeira (lançado este ano e já esgotado).

A morte de um jornal (II).

    Um dia, de repente, entra na redação do Diário Carioca,  perfumado, com cara de “agora quem manda aqui sou eu”, nada mais, nada menos que o deputado Ricardo Fiúza, cearense de nascimento, mas fixado em Recife, onde entrou para a política e tornou-se poderoso e rico. Lembram dele? Já morreu. Era um dos “anões do orçamento”, colega do João Alves, aquele parlamentar que, para justificar sua riqueza, afirmou cinicamente ter ganho 200 vezes na Loteria Esportiva. Caiu no ridículo, foi cassado (todos os envolvidos foram cassados) e entrou para o anedotário político.


   Fiúza demitiu meio mundo (eu permaneci e fui indicado pelo Gustavinho para escrever um relatório  sobre o dia-a-dia do jornal) e tratou logo de abrir uma sucursal do Diário de Notícias em Brasília. Mas começou a atrasar o pagamento acertado com o ministro Delfim. Atrasou, atrasou  e caiu fora sem pagar um vintém nem aos linotipistas. O gordo ficou furioso e mandou vender tudo do jornal, a partir do velho prédio de oito andares da Rua  Riachuelo, máquinas, móveis, tudo, até ter condições de liquidar a dívida com a Caixa Econômica.  O jornal circulou de 1930 a 1974, quando também, por força de perseguições da ditadura dos generais, deixou de circular o Correio da Manhã, o grande matutino de Paulo Bittencourt, inaugurado em 1901. Foi uma tristeza.

   Dali eu voltei para a Fundação Getúlio Vargas, onde já trabalhava, e passei a integrar a equipe que ganhou a licitação para reformar a estrutura administrativa da Polícia Rodoviária Federal em todo o país, o que nos levou a viajar Brasil afora e Brasil adentro. Trabalho monumental e gratificante, e haja fôlego para viagens intermináveis. Eu era o escrivão da frota e recebi um prêmio pelo estilo dos relatórios que tinha de escrever, mais ou menos em linguagem fora dos padrões do velho Dasp, quase que imitando aqueles do prefeito de Palmeira dos Índios (AL), Graciliano Ramos, dirigidos ao governador do Estado. Só depois dessa fase, voltei ao jornalismo, desta vez no Jornal do Brasil, um dos mais antigos periódicos do Brasil (1891), deixou de ser impresso em 2010 e agora só existe para o computador. No entanto, como dizem, a imprensa jamais deixará de ser o quarto poder de uma República. E lembro Paulo Francis (1930-1997): “O jornalismo é a segunda profissão mais antiga do mundo”.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Duelo de Titãs

 Até o momento, cinco ministros votaram a favor e cinco votaram contra os embargos infringentes, recursos que permite que 12 dos 25 condenados tenham direito a um segundo julgamento para certos crimes. A última sessão, quinta-feira passada, terminou empatada em 5 votos a 5. Na sessão de amanhã, o decano do Supremo, ministro Celso de Mello, decidirá a questão. Enquanto isso, ele vem sendo alvo de todo tipo de pressões, mas se trata de um ministro equilibrado, brilhante e com inatacável senso de responsabilidade, respeitadíssimo pelos próprios colegas no STF. Fica difícil de prever o que ocorrerá na sessão de amanhã. Ele lembrou que já tratou do tema em outras ocasiões. Qual será o seu chamado voto de minerva? Se favorável, haverá grande decepção na sociedade brasileira, e não há como evitar um grande desgaste para a corte maior da Justiça, a ponto de críticas duras como “no  Brasil o crime compensa”. O respeitável e inatacável presidente do Supremo e relator do processo, Joaquim Barbosa, certamente vai piorar de suas dores na coluna. Mas vamos esperar por Celso de Mello. Quem sabe, pode dar zebra.